segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A lata de saudades


Todo mês minha vó levava à mesa aquela lata.
Sempre que precisava pegar algum documento importante, se lembrar de alguma carta ou foto querida ou pegar o dinheiro para pagar as contas: lá estava ela. 
Todo mês aquele momento solene me enchia de excitação.
Era no segundo antes da tampa ser aberta que minha vontade mais crescia.
Ver o desenho daqueles lindos biscoitos cobertos de açúcar me deixava com água na boca; me dava uma esperança...
Todas as vezes que o ritual de pegar a tampa para abrir a lata se repetia a esperança me pegava de jeito.
Eu sempre achava que em algum momento me fariam uma surpresa e atenderiam minha vontade secreta. Em algum momento, quando aquela tampa fosse levantada, estariam ali os biscoitos, de presente pra mim.

No final das contas eles nunca estiveram.
Mas a vontade também nunca deixou de existir.
Nem a esperança.
Hoje tenho um gosto doce na boca ao lembrar do quanto eram lindas as mãos enrugadas da minha vó ao abrir a lata.
Hoje tenho os biscoitos, mas a lata parece vazia.
Minha vó não está mais aqui para abri-la.


E a vontade e a esperança?
Há momentos doces que elas me deixam continuar existindo.




quarta-feira, 12 de julho de 2017

Usar a si como espelho de nada

Uma ideia fincada
costura o corpo

Um rosto empalhado
 empedra a alma

Um movimento borrado
confunde a vista

Mas salva
os poros
de
ser.

espaço-nasço.