“Efetivamente, sobre o quê e sobre quem posso
dizer: “Eu conheço isto! ”? Este coração que há mim, posso senti-lo e julgo que
ele existe. O mundo, posso tocá-lo e também julgo que ele existe. Aí se detém
toda a minha ciência, o resto é construção. Pois quando tento captar este eu no
qual me asseguro, quando tento defini-lo e resumi-lo, ele é apenas água que
escorre entre meus dedos”. (Albert Camus).
Marcar a folha mesmo que digitalmente
me parece um ato vazio diante de um processo corpo-além.
Sei que para me lerem, neste formato, é
necessário comunicar em palavras. Mas o espaço entre elas tem me sugerido mais
vida. É possível fazer contatos profundos com o inapreensível.
Abraçar o redemoinho é tornar-se
movimento incessante. Querer desenhar, fotografar ou escrever redemoinho parece
diminuir consideravelmente a sua força.
Queria ficar somente com a força que
continua a pulsar. Mas ela também já se foi a girar. Já me fui a girar. E
continuo assim giro. Um giro que borrão suga para dentro cada mínima troca, sem
mesmo sabê-la palavra.
A verdade é que não sei nomear quais
forças me atingiram à explosão. E explosão aqui, nesta pele, parece ser processo
infinito.
Foi através dos diálogos porosos com a
diversidades de tensões que me redescobri e reconstruí
abismoflorestaescurafugamedoleãoquedarepetiçãoSísifodesesperoalegriasapecaeassimciclicamenteatécairecontinuaralevantar.
Fizeram-me a pergunta ideal: por que
você nunca virou para encarar o leão?
E todo o trabalho, no sentido
expansivo-humano da palavra, foi para respondê-la.
Não só o encarei, como de alguma
maneira o devorei e o fui. Não só me permiti à queda, como me foi reaberta a
possibilidade do voo. Fui Sísifo e sua rocha. Senti que ela também o carrega. E
que subida e descida são dois lados da mesma moeda. O riso da queda pode em
questão de segundos se transformar na queda do riso.
Da linha ao círculo no ridículo do
desiquilíbrio. Mãos-penhasco. As mesmas que a desamarram, remendam.
A obsessão foi por viver ainda
mais intensamente o que aprisiona ao invés de fingir liberdades.
Levar a prisão ao limite poderia
aproximar dos espaços de liberdade que realmente me habitam?
Limite. Daqui não dá mais. Tem que se
transformar. Ou morre pelo abismo, ou pelo leão.
Escolhi finalmente viver pelos dois.
Rugir, como ode à força intrínseca à fraqueza, bastaria.
Janina Arnaud.