segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A lata de saudades


Todo mês minha vó levava à mesa aquela lata.
Sempre que precisava pegar algum documento importante, se lembrar de alguma carta ou foto querida ou pegar o dinheiro para pagar as contas: lá estava ela. 
Todo mês aquele momento solene me enchia de excitação.
Era no segundo antes da tampa ser aberta que minha vontade mais crescia.
Ver o desenho daqueles lindos biscoitos cobertos de açúcar me deixava com água na boca; me dava uma esperança...
Todas as vezes que o ritual de pegar a tampa para abrir a lata se repetia a esperança me pegava de jeito.
Eu sempre achava que em algum momento me fariam uma surpresa e atenderiam minha vontade secreta. Em algum momento, quando aquela tampa fosse levantada, estariam ali os biscoitos, de presente pra mim.

No final das contas eles nunca estiveram.
Mas a vontade também nunca deixou de existir.
Nem a esperança.
Hoje tenho um gosto doce na boca ao lembrar do quanto eram lindas as mãos enrugadas da minha vó ao abrir a lata.
Hoje tenho os biscoitos, mas a lata parece vazia.
Minha vó não está mais aqui para abri-la.


E a vontade e a esperança?
Há momentos doces que elas me deixam continuar existindo.




quarta-feira, 12 de julho de 2017

Usar a si como espelho de nada

Uma ideia fincada
costura o corpo

Um rosto empalhado
 empedra a alma

Um movimento borrado
confunde a vista

Mas salva
os poros
de
ser.

espaço-nasço.







domingo, 6 de novembro de 2016





“Efetivamente, sobre o quê e sobre quem posso dizer: “Eu conheço isto! ”? Este coração que há mim, posso senti-lo e julgo que ele existe. O mundo, posso tocá-lo e também julgo que ele existe. Aí se detém toda a minha ciência, o resto é construção. Pois quando tento captar este eu no qual me asseguro, quando tento defini-lo e resumi-lo, ele é apenas água que escorre entre meus dedos”. (Albert Camus).

Marcar a folha mesmo que digitalmente me parece um ato vazio diante de um processo corpo-além.
Sei que para me lerem, neste formato, é necessário comunicar em palavras. Mas o espaço entre elas tem me sugerido mais vida. É possível fazer contatos profundos com o inapreensível.
Abraçar o redemoinho é tornar-se movimento incessante. Querer desenhar, fotografar ou escrever redemoinho parece diminuir consideravelmente a sua força.
Queria ficar somente com a força que continua a pulsar. Mas ela também já se foi a girar. Já me fui a girar. E continuo assim giro. Um giro que borrão suga para dentro cada mínima troca, sem mesmo sabê-la palavra.
A verdade é que não sei nomear quais forças me atingiram à explosão. E explosão aqui, nesta pele, parece ser processo infinito.
Foi através dos diálogos porosos com a diversidades de tensões que me redescobri e reconstruí abismoflorestaescurafugamedoleãoquedarepetiçãoSísifodesesperoalegriasapecaeassimciclicamenteatécairecontinuaralevantar.
Fizeram-me a pergunta ideal: por que você nunca virou para encarar o leão?
E todo o trabalho, no sentido expansivo-humano da palavra, foi para respondê-la.
Não só o encarei, como de alguma maneira o devorei e o fui. Não só me permiti à queda, como me foi reaberta a possibilidade do voo. Fui Sísifo e sua rocha. Senti que ela também o carrega. E que subida e descida são dois lados da mesma moeda. O riso da queda pode em questão de segundos se transformar na queda do riso.
Da linha ao círculo no ridículo do desiquilíbrio. Mãos-penhasco. As mesmas que a desamarram, remendam.
 A obsessão foi por viver ainda mais intensamente o que aprisiona ao invés de fingir liberdades.
 Levar a prisão ao limite poderia aproximar dos espaços de liberdade que realmente me habitam? 
Limite. Daqui não dá mais. Tem que se transformar. Ou morre pelo abismo, ou pelo leão.
Escolhi finalmente viver pelos dois.


Rugir, como ode à força intrínseca à fraqueza, bastaria.

Janina Arnaud.

domingo, 2 de outubro de 2016

Como segurar essa vida que se esvai pelos excessos?
(Não me venha com respostas prontas!).

Imagino-me peneira inversa. Parece-me que somente o mínimo fica.
O que pode parar por ser pequeno, pequenininho.
Pontinha de sensação que em esconderijo úmido cresce até tomar a forma do compreensível ainda que não exprimível. 
(Feito sachê de confeiteiro, chantilly que dolorosamente espreme-se forma,  mas quando menos se espera escapa pela pressão e misturando-se borra a perfeição da florzinha).
O dedo indicador que coça, o piscar duplo de quem fita o papel, o brilho emocionado no olho do ator, a sensação de descoberta quando se abre o baú, a água que escorreu e chicoteou para todos os lados dentro e fora do vídeo, a pele lisa que me acorda em três dedos carinhosos nas minhas costas.
Micro-instantes fotografados em micro-lugares de micro-mundos. a inteireza dos pedaços.
Pedacinhos que parecem ser importância.
(Não me venha com respostas prontas!).

O tudo acaba sendo como o nada.
Burburinho.
Burburinho.
Burburinho.
Tudo nunca é suficiente.
Porque afinal de contas, talvez falte espaço pra viver com a vida assim tão cheia.
É preciso  espaço para caber-se.
É preciso espaço para poder cultivar a vida-pedaço que pode crescer.


É preciso ser pedaço.
Ser inteiro não cabe mais.
É não mais caber.
Pra poder ser.



Saindo do assunto,  mas ainda dentro.  Fabricar contextos para potencializar falas e ações. Se fosse lá e apenas falasse, o texto seria nada. Mas antes de tudo o texto foi circundado por situações que se encaixaram, ou desconectaram para ele ser o brilho que poderia ser.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Penetrações

Nesta manhã, com o sol batendo em meus dedos:
escrever sensações com o corpo enquanto se amplia a existência respirando chá.
Uma vida camomila mel e baunilha seria muito interessante. Principalmente cheiro.
"Não!" Foi o que me veio como rosto-palavra. Para que ou quem?
"A partir de agora, nesta sala, cada ato que se fizer será considerado um ato livre."
Livre? (Silêncio Interno).
Um cri cri cri cri cri cri infernal, somado à massódefalaremparaeuserlivreestariaeusendolivre? masseeunãoquiserdizernadaemeobrigarpelocontextonãoestareisendolivre.essecoçardenarizélivreouestoucondicionadaculturalmenteareproduzílo.tememalgogritandoqueeuteriaquefalaralgointeressantesobremimmesmaparagostaremdemimmasmaisdoqueissoparaeumesmagostardemimenquantoartista.éprecisofalaralgointeressantementepoéticoparaserconsideradanestemeio? serlivreseriadesconsiderartudoissoecomeçaravirarcambalhotassemeucorpopedir?oqueéumpedirdocorpo? olhaláeuseparandocorpodementemaisumavezaff! olhaláeumejulgandoporissomaisumavez...
fumaça preta a ser dissolvida. trabalho é a cada mínimo instante destruir cada lado do quadrado, até que vire o que se precisa, o que já se é e não se sabe, ou se sabe e não se sabe. se bem que para destruir quadrado, me parece que antes ele precisa existir.
há muita ansiedade em realizar e pouco fazer durar. em um corpo-cidade-construidor-de-fim-de-mundo quase não há espaço para a luta das sementes. mesmo assim elas se debatem  l e n t a m e n t e  (lenta-mente!) a nascer. penetram com força a casca e a terra até tornarem-se visíveis a olhos despreparados. misturam-se-mundo-enquanto-o-pare-entre-as-pernas-da-existência! uma máquina foi capaz de captar a coreografia dos processos, que vivemos em corpo mas não vemos com os olhos. coreografia dos processos. coreografia dos processos da força infinita da vida que despretensiosamente grita no invisível, ou não tão despretensiosamente assim. é possível ser mais possível com os olhos das sensações.
enquanto a massa humana esteve se contorcendo, se penetrando, houve mergulho num corpo infinito. descobrir-se com mais pernas, cabeças, mãos, é descobrir-se um pouco mais além, é sentir que os limites são todos explodidos. apesar dos incômodos humanos, demasiado humanos de dor e de não consideração pelo corpo do outro. às vezes o mergulho que é para fora e para dentro, acaba por ser para dentro demais. masolhaeujulgandoocorpoalheioeporissojulgandotambémomeu. apesar não! também assim.
Quando daquela porta saí, ou quando daquela porta entrei para fora, que também é dentro, continuei com a frase no corpomente: "cada ato um ato livre" e um certo alívio fez-se luz em ação. sinto que  meus pés brotaram e floresceram para baixo de mim, e puderam me sustentar um pouco mais. houve uma alegria infantil criadora da qual é preciso lembrar, assim como todas as outras sensações-ideias-sentimentos essenciais que realmente impulsionam vida. A gente se esquece, mas quando se lembra... Ahhhh quando a gente por um instante se lembra... voa na expansão do inominável!


Lembrei de Rilke, que me lembrou de legitimar a mim mesma em arte. Fui minha própria permissão.  Considerei existir. A leveza de ser o que se sente, se fez dança. Senti delícias libertas!




quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O riso da queda é a queda do riso

Beira do precipício. A linha que é chegada e partida. Fio de navalha que me cinde em duas. Passar para lá é matar o de cá e vice-versa. Por isso, prisão é estar no meio.
Atravessá-la é exercício bruto de desintegração.  Assumir-me partículas que se unem apenas no instantâneo. É ilusão pensar que são juntas. São. Só são. Sem sanidade.
Dizem que a coragem é olhar para trás encarar o leão.
Que ele é a verdade. A certeza de que todos vão morrer. Que o verdadeiro sufoco da vida é não poder fugir do sofrimento.
Mas esse leão não é possível de aguentar. É sensação forte imaginar que quando seu olhar penetra e toca o que há de puro, a pureza se tornará irrecuperável.
É mistério de morte que não comportamos sentir em corpo. E mesmo quando parece haver proximidade, escapa entre os poros.
Não é possível aguentá-la. A morte. E ao mesmo tempo, em micro ela está em nós a todo instante. Cutucando lentamente até abrir o espaço fatal. Gotejando até inundar e levar tudo que há de sopro de vida. Tudo?
O imaginário é sempre mais potente do que a experiência em pele. E em pele não poderemos experiencia-la  em vida.
Sendo fuga ou coragem, o fato é que pulo, é queda.. Sempre pulei. Repetidas vezes corri, corri, corri, e quando o sufoco me aprisionou no entre, pulei para o outro lado. E a queda foi longa e escura.
É preciso coragem para permitir-se às profundezas.
Dela eu sempre acordava, para a realidade da qual hoje duvido.
Não sei bem o que é estar vivo a medida que o inevitável da morte se apresenta.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sintoma dos tempos de hoje é querer dias prontos e todas as coisas acabadas e pra já.

Por que afinal, para que costurar, dar-se ao trabalho de ir atrás tecido e linha e "desperdiçar" tempo, se podemos ir até uma loja agora e encontrarmos tudo pronto?

Para que cozinhar, ter que comprar, descascar legumes, lavar os alimentos e "desperdiçar" tempo cozinhando, se existem os congelados, os inúmeros restaurantes e deliverys?

Para que conversar pessoalmente, ter que organizar-se para coincidir horários com alguém, "desperdiçar" tempo marcando e se deslocando para algum lugar para um encontro, se existem os e-mails, facebook e whatsapp e posso falar o que quero agora?

Para que cultivar relacionamentos, "desperdiçar" tempo lidando com nossos monstros conjuntos e com a destruição de nossas máscaras, se até já existem "cardápios eletrônicos" de pessoas tão perfeitas, com as mais variadas opções, "tá ruim e só trocar", não é mesmo?

Sinto o quão insuficientes são esses exemplos, mas não os desenvolvo mais por duas razões. A primeira é simples: não me sinto capaz de numerar todos os exemplos suficientes. A segunda é mais importante: quero acabar logo esse devaneio escrito.

A não consciência do processo está em todo lugar.

Preciso entender melhor em que área da vida tenho "desperdiçado" pouco meu tempo, e atentar para poder "desperdiçar" mais!

Fiquei pensando... Como é que está o nosso fazer artístico em meio a tudo isso?
Em que lugares e momentos cabem a construção conjunta e o tempo do amadurecer?


Talvez, o que estejamos perdendo para além da neblina do instantâneo e da impaciência, seja muito mais úmido e mais fértil.

Uma pena é que não podemos "desperdiçar" nosso tempo para perceber.