domingo, 6 de novembro de 2016





“Efetivamente, sobre o quê e sobre quem posso dizer: “Eu conheço isto! ”? Este coração que há mim, posso senti-lo e julgo que ele existe. O mundo, posso tocá-lo e também julgo que ele existe. Aí se detém toda a minha ciência, o resto é construção. Pois quando tento captar este eu no qual me asseguro, quando tento defini-lo e resumi-lo, ele é apenas água que escorre entre meus dedos”. (Albert Camus).

Marcar a folha mesmo que digitalmente me parece um ato vazio diante de um processo corpo-além.
Sei que para me lerem, neste formato, é necessário comunicar em palavras. Mas o espaço entre elas tem me sugerido mais vida. É possível fazer contatos profundos com o inapreensível.
Abraçar o redemoinho é tornar-se movimento incessante. Querer desenhar, fotografar ou escrever redemoinho parece diminuir consideravelmente a sua força.
Queria ficar somente com a força que continua a pulsar. Mas ela também já se foi a girar. Já me fui a girar. E continuo assim giro. Um giro que borrão suga para dentro cada mínima troca, sem mesmo sabê-la palavra.
A verdade é que não sei nomear quais forças me atingiram à explosão. E explosão aqui, nesta pele, parece ser processo infinito.
Foi através dos diálogos porosos com a diversidades de tensões que me redescobri e reconstruí abismoflorestaescurafugamedoleãoquedarepetiçãoSísifodesesperoalegriasapecaeassimciclicamenteatécairecontinuaralevantar.
Fizeram-me a pergunta ideal: por que você nunca virou para encarar o leão?
E todo o trabalho, no sentido expansivo-humano da palavra, foi para respondê-la.
Não só o encarei, como de alguma maneira o devorei e o fui. Não só me permiti à queda, como me foi reaberta a possibilidade do voo. Fui Sísifo e sua rocha. Senti que ela também o carrega. E que subida e descida são dois lados da mesma moeda. O riso da queda pode em questão de segundos se transformar na queda do riso.
Da linha ao círculo no ridículo do desiquilíbrio. Mãos-penhasco. As mesmas que a desamarram, remendam.
 A obsessão foi por viver ainda mais intensamente o que aprisiona ao invés de fingir liberdades.
 Levar a prisão ao limite poderia aproximar dos espaços de liberdade que realmente me habitam? 
Limite. Daqui não dá mais. Tem que se transformar. Ou morre pelo abismo, ou pelo leão.
Escolhi finalmente viver pelos dois.


Rugir, como ode à força intrínseca à fraqueza, bastaria.

Janina Arnaud.

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