domingo, 19 de abril de 2015

Dentro é úmido.

Nas(c)ser água.
Romper com a terra.
Não deixar queimar as sementes.

Brotar é sustent(o)ar pedaço de céu.



(Cíclica - 19/04/2014)

cor pomar

Transmutação. 
sem mutação alguma.
Transformação.
sem fôrmação alguma.
Autocondução,
condição-oração do ser-disforme.

toda parte é também todo.
se algo vai, nada fica.

um dedo delicadamente se move.
mal se percebe
coomove.
arrasta-mundo. 
não dizível tangível palma da mão.
mapeia incendeia sensação.
cor ação


como casa habitei nós
catavento os dissolvi
    dissolvi-me também eu,
preenchendo corro í r!

 barragem fui rompi.
torrente
 vermelha 
rebentei.
fertilizei-me amplitude.
descobri-me descoberta
fluida 
ininterrupta
vívida
flutuante


navegante em cada uma de minhas dobras navegantes
guiada guiante fui vou voo.

rodo e pio
sendo sopro:
corpo-vento
corpo-vela
corpo-mar
corpo-corpo



árvore danço.
expurgo minhas folhas enquanto as nasço.
expando

sou fruto 
 e saboreio a
cor pomar





sábado, 21 de fevereiro de 2015

Conexão

O corpo foge de estremecer. Finge não aguentar para defender-se de ser potência. É quase insuportável ser, de todo. Réstia de luz é de repente entender que sempre se é. Somos todo, completamente, insuportavelmente, misteriosamente, lindamente. Abrir os olhos da pele é escancarar-se. Olhar para as feridas é ao mesmo tempo fabricá-las e curá-las. Escorrer junto tem força de correnteza. Gota de água, de suor, de lágrima, tem sabor de imensidão. Imensidão unificadora. Aquela, que nos faz tão frágeis e limitados, quanto poderosos e infinitos. Aquela que não revela mas dá pistas do não-tamanho da nossa humanidade. 
Quando o corpo se movimenta, a alma vibra e dança.
Há algo para além do humano inserido em nós.
Que a vida continue transbordando de nossos poros!!
Em quarto e de peito apertado a menina se levanta várias vezes pra tentar ver a Lua, mesmo que enquadrada pela janela.
 A cada tentativa frustrada tudo a espremia mais.
Com os olhos do coração sua mãe de longa distância lhe enxerga e na mesma hora lhe manda uma foto da Lua, linda, cheia.
A menina transbordou.

As não-fotografias de hoje

Num céu-fim de tarde regado a nuvens-conforto, uma pipa vermelha com sua rabiola dançante faz cócegas numa Lua que sorri.
Testemunhando ao pôr do Sol a grama é invadida pela passagem das sombras de uma charrete e de sete de cavaleiros da simplicidade.
transformação.
tirar da fôrma a ação.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

poros-gratidão

Deixa, deixa escorrer! Não empoça não!
Do topo da cabeça à planta dos pés!
Isso! Deixa passar!

Gota por gota ser-corrente. Correnteza!
ser-passagem.v a g a r o s a m e n t e.

A melhor imagem tornou-se corpo.
Era tanta beleza que não coube, transbordou.

A não-palavra fez tanto sentido que aprendeu a ficar em silêncio.

Para o que foi não há foto ou palavra suficiente.
Muito menos para o que é.

Mas há corpo.
preenchido e respirado.
dolorido e curado.

Momentos pés.
Momentos pernas.
Momentos quadril.
Momentos costas.
Momentos cabeça.

Quanta palavra incompleta! Corpo gritando e quietinho é bem mais!

Para pés parados, pés dançantes.
Aqueles que dia a dia divertem-se criando caminho.

Para pernas dormentes, pernas formigantes.
Aquelas que afirmam-se dia a dia próprio caminhar.

Para quadris rígidos, jogo de cintura.
Aquele que acredita nas possibilidades do "impossível".

Para costas doloridas, costas leves.
Aquelas que a cada dia aprendem a carregar apenas o que precisam e querem.

Para cabeça-emboscada, cabeça-asas.
Aquela que luta todos os dias por uma liberdade não ilusória.

Mapear o corpo é saber-se vida!
Saber-se instante, paisagem, interno e externo!
Misturança temperada, uma coisa em muitas!

Para as pessoas-encontro e para as pessoas-desencontro tenho poros-gratidão!
Tornaram-me e foram-me. Estão enquanto ficam, vão e são.


Neste fim e nesse recomeço tive e tenho:
Poros- gratidão!
Coração-fogos de artifício!
Braços-companheirismo!
Olhar-cumplicidade!
Dedão do pé-pôr do Sol!


Tenho também, aliás, não tenho porque é de natureza tudo escorrer:
 Umidade além corpo.


Tenho aprendido a transbordar em gotas.
São breves. Caem ou secam.
E assim, em seus finitos segundos, me infinitam.
E por isso, não tenho a mínima ideia de como agradecer.