terça-feira, 22 de outubro de 2013

Onde existe o sofrimento e ele é considerado, ainda existe esperança. O sentir ainda não está abafado, amortecido, acomodado, esquecido. Considerar o sofrer é agir para uma não conformação. Essa não conformação é o que nos impulsiona a continuar tentando, ela é o que nos faz seguir com coragem para caminhar na direção contrária, para caminhar em nossa própria direção. Enquanto o peito continuar gritando, a luta existirá. Enquanto houver o sentir, a luta resistirá.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

escava-me a água. escava-me como escava a terra vermelha. constrói profundos caminhos em mim. latejam, mas persisto escorrendo e me arrastando através deles. uma dor profunda se revela. mas continuo navegando através do líquido que assola e restaura meu próprio corpo: o desconhecido. que eu possa sair ilesa aos monstros internos. que não seja abismo em meu próprio fim. que eu seja porto, mas que as âncoras não me impeçam de desvendar outros mares. que eu seja mar, mas mais do que isso: que ele me ensine a ser em mistério.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Hoje, como numa tradição de dias chuvosos, fiquei comigo mesma, me perdi e me encontrei em mim. Me encontrei em lágrimas e sorrisos, em calmaria e desespero. Participei de um ritual: vestir-me de mim. A chuva me traz à mim, a água caindo em minha pele, também é pele caindo no que tenho de água, no que tenho de vida. Revirei o passado, o presente e o futuro. Encontrei com uma sapatilha, um collant e uma meia calça. Vesti! Vesti-me de mim! Senti o contato do tecido com a pele, o apertar dos pés. Senti meus músculos, senti meu pulmão se comprimindo e expandindo, senti meu coração batendo mais forte. Senti o quanto para ser eu, já precisei estar fora visitando outros mundos, outros corpos. Senti o quanto outros mundos e outros corpos também me são. O suor me foi como a chuva penetrando em minha pele. Senti! Eu sinto! As vezes sentir parece um milagre! Por mais que doa, por mais que eu por diversas vezes não entenda. Sim, sentir é um milagre. Sentir é enxergar com a pele. Arranquei a roupa como quem tenta arrancar o peito, quis correr, quis gritar, mas apenas coloquei minha pior roupa e caminhei, ao meu encontro. Olhava para o chão, queria estar mais próxima dele, olhava para o céu, queria-o dentro de mim. Queria poder enxergar minha verdadeira face nas poças de chuva, na lama. Mas a única coisa que consegui foi sujar minhas pernas de barro. Queria caminhar sem sentido, sem encontros, mas a rua não me permitiu. Eu não queria encontrar com o humano de fora, eu queria encontrar com o humano de dentro. Toc, toc: quem tá aí nesse oco profundo? Que rosto é esse que uma imagem borrada de uma mulher sem óculos representa? Quis entender o que as árvores estavam me dizendo, o que os pássaros estavam me dizendo. Queria que gritassem algo sobre mim! Algo sobre esse desconhecido que as vezes me desespera! Mas tudo ficou em silêncio. Queria correr sem ter porque voltar. Mas eu só consegui caminhar um quarteirão. Tive medo.Tive medo de me perder no comum do caminho. Tenho medo de nunca me achar. No banho a água retorna, o sentir da pele retorna. Me encolhi como semente e pensei: preciso brotar! Que a água nas minhas costas seja a vida que me falta. Ou a vida que quer transbordar de mim e de alguma maneira está presa. Lembrei do verde vivo das plantas na chuva. Quis ser verde. Quis ser planta. Acho que porque em meio ao tudo e ao nada do meu próprio mistério: tenho tentado ser, sentir e agir como sou, sinto e ajo. E como é que sou, sinto e ajo? Não sei. Que mais tardes como esta possam não me dizer.

domingo, 29 de setembro de 2013

Gratidão

[Da janela, ela vê como a vida segue. Ganha coisas que tão sempre ali e ninguém percebe. Acredita que a vida é mais que a sobrevivência. Luta, bate de frente, joga na resistência. Vai além do que os olhos podem enxergar. Já que limites são fronteiras, decidiu atravessar. Navega, em busca de um sonho a realizar. Pelos mares da realidade, tempestades enfrenta. Pela honra, morre. Nunca se entrega. No olhar sincero, a força pra recomeçar. Na presença do luar, caminha, segue. Recorda-se sempre do que veio fazer aqui. Da missão que assumiu, extensão disso aqui. Visão que adquiriu conforme as coisas que viveu. Aprendeu a amar. Por amor, sofreu. Perdoa à quem fez chorar, é grata à quem fez sorrir.]

-Síntese.

Entre seus colchetes: a gratidão. 
Com você ela transborda.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Olá você

Olá você!

Que:

sugou minha maneira de sorrir
arrancou meu prazer em escrever
diminuiu o meu dançar
depredou a minha arte de expressar
copiou minha maneira de tratar
vandalizou minha maneira de encarar
ridicularizou minha maneira de me entregar

Olá você!
que tem braços tão frouxos 
que não pode se alcançar.


Olá você!
Tenho uma última coisa para lhe presentear
Quem sabe até nisso possa me imitar:

ADEUS VOCÊ!!!!


sábado, 29 de junho de 2013

Verdes linhas

Textos são como frutos.
As palavras amadurecem dia a dia,
depois de brotarem cada uma em seu galho, em sua linha.

Sinto que não colherei nada.
Nenhum tempo me é suficiente para uma maturação completa.
Morrei de fome?

Palavras me adentram por outros lugares que não a boca.
A natureza é sábia!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A coisa


Uma porta ficou entreaberta.

Que porta é essa?
O que passa por essa pequena fresta?
 O que pode passar?

Uma corrente fria de vento aproveita o espaço vez ou outra.
A porta balança milimetricamente, mas acaba imóvel na posição de início.
Ainda assim: os sutis balanços provocam tremendo estrondo.

É notável que coisas grandes não passam pela fresta.
A não ser que tentem se espremer...
Mas algumas coisas não podem ser espremidas.
Perdem a forma e o sentido se assim tentarem.
Coisas que já conheceram o disforme não têm mais essa ousadia.

O que falta passar?
Que coisa é essa, última da fila,
que espera ansiosamente a possibilidade de passar
 para finalmente fechar a porta,
  e se jogar aliviada no conforto do sofá mais próximo
 sendo acarinhada pelo calor de uma bela xícara de café?