Dentro disto que podemos chamar de contemporaneidade, deste tempo, sinto rasgar na pele, no contato com o outro ou no evitar deste contato, valores predominantes e destruidores das tão sofridas, difíceis, mas bonitas, imprescindíveis e fundamentais relações humanas.
Valores como a solidão, a autossuficiência, o individualismo e uma ideia de liberdade que não emancipa, mas aprisiona, expressos e cultivados em ásperos gestos e displicentes palavras, não tão claros à primeira vista, de tão arraigados que estão em nós.
Solidão e autossuficiência, palavras que se complementam num evitar do outro, do contato. É tão difícil à troca, trabalhosa, muitas vezes dolorosa, exige tanto de nós que preferimos em muitos momentos dar-nos algumas desculpas para evitá-la e nos convencermos da sua não necessidade. Uma entre essas desculpas, a que gostaria de enfatizar aqui por estar ecoando durante todo o dia em minha cabeça após um contato: é o incômodo que podemos causar no outro. Considerando-o como máxima, achamos melhor realizarmos o que for, determinada atividade, ação, ou mesmo não realizar, baseados somente no "eu", não compreendendo que o "eu" totalmente isolado do meio em que vivemos, das pessoas, não existe. Sim, somos interdependentes, no melhor sentido da palavra! Precisamos um dos outros desde o momento em que nascemos até o momento de nossa morte.
A minha pessoa já é um incômodo, entrou em meus ouvidos e reverberou de maneira estrondosa em meu interior. Eu não ser o outro, já é um incômodo para ele, assim como ele para mim. Nossos pensamentos e planos não serem os mesmos é incômodo, entretanto, não vivemos sem a troca. Não há como não incomodar.
Não há como não incomodar. A luta - e que bela luta! -, é lidarmos conosco e com o outro neste incômodo constante que nos possibilita um imenso crescimento e autoconhecimento quando encarado.
Paz intranquila.
Que nos saibamos compartilhar!
O outro é cesta básica para nós.
Que nos seja possível entender, mas mais do que isso: sentir e viver sem fuga.
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