quinta-feira, 20 de março de 2014

Revés

engolir a si próprio. engolir repetidas e repetidas vezes, continuamente... tentativa dolorida, esperança frágil, de que em alguma delas,  (por favor, em qualquer uma delas!), seja possível digerir a comida estragada que revira não apenas o estômago, mas o corpo todo em cada uma de suas células ardentes, desesperadas por ar. engolir-se é  ciclo contínuo e vicioso. ciclo amargo, chega a ter gosto de fim de vômito, ácido corrosivo entalado na garganta.  desde o primeiro momento, quando a boca revira seus olhos para dentro, na primeira tentativa de deglutição, perde-se a capacidade de identificar o lado avesso. ele torna-se um só lado nesse eterno e sufocante revesamento. tudo está intoxicado. o corpo é moeda girando cambaleante cara-coroa-cara-coroa-cara-coroa-cara-coração-cara-coração-cara, cor ação, cara! cor na ação! cara! cor! cor! cor po ação!
a moeda ofegante joga-se entregue ao chão. o corpo ofegante sem, torna-se chão. pisa em si próprio em busca de salvação, perna sobre perna numa corrida sem chegada, na qual o pulmão grita desesperado por socorro. expande-se com a força de quem quer ser mundo. quer ser o big bang necessário para que a vida congelada e comprimida exploda e reine em sua maior potência. sufoca. tosse. força em seu último suspiro o trabalho de parto. parte. ainda não todo, parte...


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