quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O riso da queda é a queda do riso

Beira do precipício. A linha que é chegada e partida. Fio de navalha que me cinde em duas. Passar para lá é matar o de cá e vice-versa. Por isso, prisão é estar no meio.
Atravessá-la é exercício bruto de desintegração.  Assumir-me partículas que se unem apenas no instantâneo. É ilusão pensar que são juntas. São. Só são. Sem sanidade.
Dizem que a coragem é olhar para trás encarar o leão.
Que ele é a verdade. A certeza de que todos vão morrer. Que o verdadeiro sufoco da vida é não poder fugir do sofrimento.
Mas esse leão não é possível de aguentar. É sensação forte imaginar que quando seu olhar penetra e toca o que há de puro, a pureza se tornará irrecuperável.
É mistério de morte que não comportamos sentir em corpo. E mesmo quando parece haver proximidade, escapa entre os poros.
Não é possível aguentá-la. A morte. E ao mesmo tempo, em micro ela está em nós a todo instante. Cutucando lentamente até abrir o espaço fatal. Gotejando até inundar e levar tudo que há de sopro de vida. Tudo?
O imaginário é sempre mais potente do que a experiência em pele. E em pele não poderemos experiencia-la  em vida.
Sendo fuga ou coragem, o fato é que pulo, é queda.. Sempre pulei. Repetidas vezes corri, corri, corri, e quando o sufoco me aprisionou no entre, pulei para o outro lado. E a queda foi longa e escura.
É preciso coragem para permitir-se às profundezas.
Dela eu sempre acordava, para a realidade da qual hoje duvido.
Não sei bem o que é estar vivo a medida que o inevitável da morte se apresenta.

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