Beira do precipício. A linha que é chegada e partida. Fio de navalha que me cinde em duas. Passar para lá é matar o de cá e vice-versa. Por isso, prisão é estar no meio.
Atravessá-la é exercício bruto de desintegração. Assumir-me partículas que se unem apenas no instantâneo. É ilusão pensar que são juntas. São. Só são. Sem sanidade.
Dizem que a coragem é olhar para trás encarar o leão.
Que ele é a verdade. A certeza de que todos vão morrer. Que o verdadeiro sufoco da vida é não poder fugir do sofrimento.
Mas esse leão não é possível de aguentar. É sensação forte imaginar que quando seu olhar penetra e toca o que há de puro, a pureza se tornará irrecuperável.
É mistério de morte que não comportamos sentir em corpo. E mesmo quando parece haver proximidade, escapa entre os poros.
Não é possível aguentá-la. A morte. E ao mesmo tempo, em micro ela está em nós a todo instante. Cutucando lentamente até abrir o espaço fatal. Gotejando até inundar e levar tudo que há de sopro de vida. Tudo?
O imaginário é sempre mais potente do que a experiência em pele. E em pele não poderemos experiencia-la em vida.
Sendo fuga ou coragem, o fato é que pulo, é queda.. Sempre pulei. Repetidas vezes corri, corri, corri, e quando o sufoco me aprisionou no entre, pulei para o outro lado. E a queda foi longa e escura.
É preciso coragem para permitir-se às profundezas.
Dela eu sempre acordava, para a realidade da qual hoje duvido.
Não sei bem o que é estar vivo a medida que o inevitável da morte se apresenta.
Nos olhos do outro me enxergo.(?) Não deveria eu estar enxergando os olhos do outro? Enxergando os olhos, enxergaria o outro? O que o outro enxerga em meus olhos? Todos os olhos outros que já enxerguei em mim?
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
sexta-feira, 27 de maio de 2016
Sintoma dos tempos de hoje é querer dias prontos e todas as coisas acabadas e pra já.
Por que afinal, para que costurar, dar-se ao trabalho de ir atrás tecido e linha e "desperdiçar" tempo, se podemos ir até uma loja agora e encontrarmos tudo pronto?
Para que cozinhar, ter que comprar, descascar legumes, lavar os alimentos e "desperdiçar" tempo cozinhando, se existem os congelados, os inúmeros restaurantes e deliverys?
Para que conversar pessoalmente, ter que organizar-se para coincidir horários com alguém, "desperdiçar" tempo marcando e se deslocando para algum lugar para um encontro, se existem os e-mails, facebook e whatsapp e posso falar o que quero agora?
Para que cultivar relacionamentos, "desperdiçar" tempo lidando com nossos monstros conjuntos e com a destruição de nossas máscaras, se até já existem "cardápios eletrônicos" de pessoas tão perfeitas, com as mais variadas opções, "tá ruim e só trocar", não é mesmo?
Sinto o quão insuficientes são esses exemplos, mas não os desenvolvo mais por duas razões. A primeira é simples: não me sinto capaz de numerar todos os exemplos suficientes. A segunda é mais importante: quero acabar logo esse devaneio escrito.
A não consciência do processo está em todo lugar.
Preciso entender melhor em que área da vida tenho "desperdiçado" pouco meu tempo, e atentar para poder "desperdiçar" mais!
Fiquei pensando... Como é que está o nosso fazer artístico em meio a tudo isso?
Em que lugares e momentos cabem a construção conjunta e o tempo do amadurecer?
Talvez, o que estejamos perdendo para além da neblina do instantâneo e da impaciência, seja muito mais úmido e mais fértil.
Uma pena é que não podemos "desperdiçar" nosso tempo para perceber.
Por que afinal, para que costurar, dar-se ao trabalho de ir atrás tecido e linha e "desperdiçar" tempo, se podemos ir até uma loja agora e encontrarmos tudo pronto?
Para que cozinhar, ter que comprar, descascar legumes, lavar os alimentos e "desperdiçar" tempo cozinhando, se existem os congelados, os inúmeros restaurantes e deliverys?
Para que conversar pessoalmente, ter que organizar-se para coincidir horários com alguém, "desperdiçar" tempo marcando e se deslocando para algum lugar para um encontro, se existem os e-mails, facebook e whatsapp e posso falar o que quero agora?
Para que cultivar relacionamentos, "desperdiçar" tempo lidando com nossos monstros conjuntos e com a destruição de nossas máscaras, se até já existem "cardápios eletrônicos" de pessoas tão perfeitas, com as mais variadas opções, "tá ruim e só trocar", não é mesmo?
Sinto o quão insuficientes são esses exemplos, mas não os desenvolvo mais por duas razões. A primeira é simples: não me sinto capaz de numerar todos os exemplos suficientes. A segunda é mais importante: quero acabar logo esse devaneio escrito.
A não consciência do processo está em todo lugar.
Preciso entender melhor em que área da vida tenho "desperdiçado" pouco meu tempo, e atentar para poder "desperdiçar" mais!
Fiquei pensando... Como é que está o nosso fazer artístico em meio a tudo isso?
Em que lugares e momentos cabem a construção conjunta e o tempo do amadurecer?
Talvez, o que estejamos perdendo para além da neblina do instantâneo e da impaciência, seja muito mais úmido e mais fértil.
Uma pena é que não podemos "desperdiçar" nosso tempo para perceber.
terça-feira, 24 de maio de 2016
antes de mais nada, uma justificativa: deu vontade de ser em minúsculas.
achei horrível mas fiz.
pensei.
quando identifiquei não acreditei.
mas foi isso mesmo, assumo.
nem sempre sou o que me sai...
lá vai:
questionei o poder da ficção.
ai.
isso mesmo!
sim, é terrível!
questionei o poder dos encantamentos!!!
eu que sempre precisei colocar os olhos de poesia para sobreviver à realidade "concreta".
sim, de concreto, às vezes cinza, dura, como esse prédio-caixa onde dia a dia estaciono meu corpo.
sim, isso mesmo, questionei estar lendo um livro porcamente julgado por mim como "inútil".
doeu.
"há tanto a ser feito, questionado! há tanta luta a travar e eu aqui lendo essa ~ficção~".
o incômodo foi como os daquelas noites mal dormidas nas quais nunca se encontra posição na cama.
ovo em frigideira.
Desacomodei dentro de mim.
Não me coube.
Como assim desacreditei do que pode reinventar essa vida que as vezes parece tão pouca?!
Como assim desacreditei da folga que é poder existir de outras maneiras?!
Como assim desacreditei do olhar-resistência que impulsiona transformações?!
Como assim desacreditei das palavras-ideias que geram ações de luta?!
Eu ein...
O mundo das utilidades ~adultas~ é mais perigoso do que eu pensava.
é preciso estar forte e se armar cada dia mais com palavras bobas!
achei horrível mas fiz.
pensei.
quando identifiquei não acreditei.
mas foi isso mesmo, assumo.
nem sempre sou o que me sai...
lá vai:
questionei o poder da ficção.
ai.
isso mesmo!
sim, é terrível!
questionei o poder dos encantamentos!!!
eu que sempre precisei colocar os olhos de poesia para sobreviver à realidade "concreta".
sim, de concreto, às vezes cinza, dura, como esse prédio-caixa onde dia a dia estaciono meu corpo.
sim, isso mesmo, questionei estar lendo um livro porcamente julgado por mim como "inútil".
doeu.
"há tanto a ser feito, questionado! há tanta luta a travar e eu aqui lendo essa ~ficção~".
o incômodo foi como os daquelas noites mal dormidas nas quais nunca se encontra posição na cama.
ovo em frigideira.
Desacomodei dentro de mim.
Não me coube.
Como assim desacreditei do que pode reinventar essa vida que as vezes parece tão pouca?!
Como assim desacreditei da folga que é poder existir de outras maneiras?!
Como assim desacreditei do olhar-resistência que impulsiona transformações?!
Como assim desacreditei das palavras-ideias que geram ações de luta?!
Eu ein...
O mundo das utilidades ~adultas~ é mais perigoso do que eu pensava.
é preciso estar forte e se armar cada dia mais com palavras bobas!
domingo, 22 de maio de 2016
sexta-feira, 4 de março de 2016
corpo-traição
um corpo-memória se rasga ao presente.
o vento de outono arrasta
a pele
sangrando às moscas
escancara
o Sol à seca
sangrando às moscas
o Sol a seca
o vento arrasta
as moscas.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Há dias que ex-correm para amolecer os corpos.
Corpos molinhos se esticam-esticaaaam... Espremeem-espremeeeem em busca de si mesmos.
Às vezes nesse movimento, podem até soltar um caldo de aperto-aliviante do fundo do peito.
Fresquinhos, corpos tem mais possibilidade de se auto-alcançarem.
Às vezes relam-se! Conseguem no esforço máximo de uma estica-ação encontrarem-se instantaneamente a si mesmos! Mesmo que em questão de segundos, o limite os alcance e os devolva em um movimento estilingado, in verso, para a posição inicial da busca.
Apesar de desencostados na maioria dos momentos, nesses dias uma coisa é certa: mais perto se chegam.
É em dias como esse que mesmo sem perceberem, algo úmido neles, sorri radiante, silenciosamente.
Algo é misteriosamente encontrado. Mesmo nos desencontros. Mesmo que não se saiba.
Quantas serão as partes que desconhecemos em nós?
.
Não sei quantas ou que partes são essas...
Mas sinto que algumas delas, se abraçam forte em dias de chuva.
Corpos molinhos se esticam-esticaaaam... Espremeem-espremeeeem em busca de si mesmos.
Às vezes nesse movimento, podem até soltar um caldo de aperto-aliviante do fundo do peito.
Fresquinhos, corpos tem mais possibilidade de se auto-alcançarem.
Às vezes relam-se! Conseguem no esforço máximo de uma estica-ação encontrarem-se instantaneamente a si mesmos! Mesmo que em questão de segundos, o limite os alcance e os devolva em um movimento estilingado, in verso, para a posição inicial da busca.
Apesar de desencostados na maioria dos momentos, nesses dias uma coisa é certa: mais perto se chegam.
É em dias como esse que mesmo sem perceberem, algo úmido neles, sorri radiante, silenciosamente.
Algo é misteriosamente encontrado. Mesmo nos desencontros. Mesmo que não se saiba.
Quantas serão as partes que desconhecemos em nós?
.
Não sei quantas ou que partes são essas...
Mas sinto que algumas delas, se abraçam forte em dias de chuva.
sábado, 6 de junho de 2015
O Caminho do Sertão: primeiro passo.
Da terra rebenta o verde. O que poderia rebentar de meus poros repletos de terra? O que um corpo pode cultivar de caminho? Quantos possíveis constroem um caminhar? O encontro me rega. A partir dele, da magia de outras histórias e realidades posso brotar, me transformar e fortalecer minha ação no mundo. As relações me adubam. Sentir a luta de cada pessoa, seus suores, lágrimas e sorrisos, lembra-me que gente é que rega gente. Gente é que faz gente crescer. Gente junto então? Vish! Gente junto enfrenta qualquer secura. Gente junto é terra fértil. Gente junto pode ser tudo aquilo que habita e se liberta através do solo. Não há problema em só conseguir ver o início, a semente. Não há problema em não estar aqui para acompanhar o crescimento de um outro mundo, mais justo e mais digno. O importante é continuar plantando
E na possibilidade do caminhar em conjunto, sinto a semente, sinto a possibilidade de confluir caminhos para as lutas que dizem respeito a terra, nossa morada, nosso alimento, o lugar que todos os pés tocam, sejam eles quais forem. ele neste agora, passo por passo. Que se comece plantando a planta dos pés em movimento no chão e a chama da esperança no coração. Um dia disseram que do pó somos feitos. Eu hoje digo que do pó, da relação com a terra e com a natureza que somos, podemos ser refeitos. E na possibilidade do caminhar em conjunto, sinto a semente, sinto a possibilidade de confluir caminhos para as lutas que dizem respeito a terra, nossa morada, nosso alimento, o lugar que todos os pés tocam, sejam eles quais forem.
E na possibilidade do caminhar em conjunto, sinto a semente, sinto a possibilidade de confluir caminhos para as lutas que dizem respeito a terra, nossa morada, nosso alimento, o lugar que todos os pés tocam, sejam eles quais forem. ele neste agora, passo por passo. Que se comece plantando a planta dos pés em movimento no chão e a chama da esperança no coração. Um dia disseram que do pó somos feitos. Eu hoje digo que do pó, da relação com a terra e com a natureza que somos, podemos ser refeitos. E na possibilidade do caminhar em conjunto, sinto a semente, sinto a possibilidade de confluir caminhos para as lutas que dizem respeito a terra, nossa morada, nosso alimento, o lugar que todos os pés tocam, sejam eles quais forem.
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