segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sou

O que mais posso querer do que exercer instantes? Tentar capturar, absorver cada sorriso, cada pôr de Sol, cada palavra, cada chuva, cada olhar, cada vento, cada lágrima, cada Lua, cada não dito de cada pessoa e cada dito pelo céu.
Desde o senhor que me cumprimenta tão simpaticamente todos os dias com um “bom dia moça”, até aquela criança que passou por mim correndo e me preencheu de alegria naquele momento em que eu estava precisando tanto. Também aquela moça cruzando meu caminho que eu não sei o nome, nem vou saber, mas que o olhar significou tanto naquele ínfimo segundo. Aqueles mal humores identificados em um gesto de mão ao devolver um troco. Aquelas tristezas identificadas em cabeças curvadas e sorrisos forçados. Aquelas esperanças identificadas naquele brilho de ações e dentes lindamente e sinceramente à mostra. Até as extensas conversas que já tive e todo o silêncio que eu já vivi. Todo o momento de um longo abraço. Todo o momento de um curto aceno de cabeça. Pouco muito, muito pouco. Sempre muito. Todo o contato.  Do que eu preciso é ser presença.
É tanto inevitável como uma necessidade minha tentar ser captadora de momentos, eles se agarram em mim e não sei o que gritar para fazê-los soltar. E não sei se quero mesmo que soltem por mais que me apertem. E ainda que possam me soltar, as marcas de seus dedos ainda ficarão.
 Momentos que em mim se fixam e me ajudam ser. Pessoas que em mim se fixam e me ajudam ser. Histórias que em mim se fixam e se misturam com a minha. Sóis, Luas, ventos, chuvas, frios e calores que comigo caminham.

 Sou...

Ou ao menos tento.


(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)
Viviane Mosé

quarta-feira, 1 de junho de 2011

De dentro e de fora

No interior da terra, raízes espalham-se, contorcem-se, quebram e muitas vezes acabam esfareladas confundindo-se ao pó. Mas porque é preciso, existem aquelas que mesmo fracas, continuam persistindo e fazendo um extremo esforço para fincar-se e dar sustentação ao que se expõe ao vento, às tempestades, à vida.


Passamos diante de muitas árvores e não consideramos o esforço dessas fracas raízes que lutam com tanto vigor,  não as vemos.  Notamos a grandeza dos troncos, o espalhar dos galhos, o verde das folhas.


Existe-se para dentro, para se concretizar a existência : para fora.

                             
                                        

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Adeus guarda-chuva

No encontro das palavras, o alívio...
É como aquele frescor das gotas de chuva, o que deixa a grama mais verde.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Pausa

Segundo a Física o branco-muitas vezes símbolo do nada- visto com rapidez, é a mistura de todas as cores, ou seja, de muito.





 É preciso parar para respirar o arco-íris em cada uma de suas cores.




domingo, 17 de abril de 2011

Sobre a estante

Com aquela alegria infantil, por meio de suas mãos gordinhas pegou a boneca.

A fez andar e brincar por meio de seus movimentos. Não a fez sentir, pois mesmo com seus olhos mortos e vidrados num ponto específico e seu corpo repousado sobre a estante, ela já sentia. O seu interior borbulhava, mas não era capaz de transbordar por meio de palavras, podia até mesmo mover-se sozinha em segredo quando o interior lhe estivesse insuportável, mas falar não.

Mesmo os movimentos das mãozinhas não foram capazes de mover a sua boca. Não falava, mas dizia.

Contava as mais divertidas piadas, as mais interessantes histórias, tinha as mais puras das reflexões, exprimia o mais profundo dos seus sentimentos.

Não falava com a sua boca, mas por meio de seus movimentos, soube o que era dizer.

domingo, 20 de março de 2011

eu não sei o que há nesse vagar interno de silêncios mudos.


os pés caminham sozinhos, pisando por cima de si mesmos.

tranquilidade cômoda, conformismo só.

tic-tac levanta, cai, levanta, cai, levanta, cai.

adeus palavras felizes, adeus sorrisos simpáticos.

borrões de rostos, os olhos continuam nítidos a cobrar.

não, não, não, não.

não insista, tenho direito a ele.

gritei tanto que me falta a voz.

 mas para que as palavras?

cabeça baixa.

de pés perdidos meus caminhos estão cheios.

quero o escuro tanto quanto o claro.



o preço do meu calado, é a liberdade do não-dizer.