quinta-feira, 5 de junho de 2014

Percepção

"Tô na chuva pra me molhar".
Mas às vezes por não saber o que vem do céu, sinto que tenho o impulso de abrir o guarda-chuva.
O desconhecido assusta e a água muitas vezes é fria e incômoda.
Sinto que todo meu esforço é para manter o guarda-chuva fechado, para deixar a água escorrer me entregando à ela, e quem sabe, de alguma maneira, para que eu possa transbordar nessas vivências.
Agir, descobrir na ação é desafio!
Há o empenho contínuo para mergulhar nesse mundo, tão desconhecido quanto o mar...
Há o empenho e a vontade de estar de corpo aberto para poder ser afetada por cada uma das possibilidades, por cada um dos mundos que me são apresentados.

[Absorver] - "Embeber-se de."

Por que não ser absorvida?
Por que não embebedar-me?



quinta-feira, 20 de março de 2014

Revés

engolir a si próprio. engolir repetidas e repetidas vezes, continuamente... tentativa dolorida, esperança frágil, de que em alguma delas,  (por favor, em qualquer uma delas!), seja possível digerir a comida estragada que revira não apenas o estômago, mas o corpo todo em cada uma de suas células ardentes, desesperadas por ar. engolir-se é  ciclo contínuo e vicioso. ciclo amargo, chega a ter gosto de fim de vômito, ácido corrosivo entalado na garganta.  desde o primeiro momento, quando a boca revira seus olhos para dentro, na primeira tentativa de deglutição, perde-se a capacidade de identificar o lado avesso. ele torna-se um só lado nesse eterno e sufocante revesamento. tudo está intoxicado. o corpo é moeda girando cambaleante cara-coroa-cara-coroa-cara-coroa-cara-coração-cara-coração-cara, cor ação, cara! cor na ação! cara! cor! cor! cor po ação!
a moeda ofegante joga-se entregue ao chão. o corpo ofegante sem, torna-se chão. pisa em si próprio em busca de salvação, perna sobre perna numa corrida sem chegada, na qual o pulmão grita desesperado por socorro. expande-se com a força de quem quer ser mundo. quer ser o big bang necessário para que a vida congelada e comprimida exploda e reine em sua maior potência. sufoca. tosse. força em seu último suspiro o trabalho de parto. parte. ainda não todo, parte...


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Acolhimento

Olhar de carinho, pano branco em mãos. Venda-me. Não vejo mas sinto, é pele. Sentir é ver com a pele e para além dela. Quanto cuidado... Sinto-me abraçada pelos dedos que me guiam. Não sei para onde ir e nem o que fazer, mas me sinto bem. Arrepio, a emoção toma meu corpo, meus olhos respondem com lágrimas; umedeço a venda. Sou eu transbordando a beleza que me proporcionaram e que não cabe em mim, que me ultrapassa, que me imensa. Estremeço de gratidão! É esse o estremecer!! O que nutre, o que impulsiona o movimento! Escorro de gratidão da cabeça aos pés! Cantarolo sussurrando: "Eu tô, eu tô, em casa agora eu tô, pararatimbum pararatimbum, eu tô, eu tô eu tô eu tô..."

Sinto que diante da vida, todos estamos de olhos vendados.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Onde existe o sofrimento e ele é considerado, ainda existe esperança. O sentir ainda não está abafado, amortecido, acomodado, esquecido. Considerar o sofrer é agir para uma não conformação. Essa não conformação é o que nos impulsiona a continuar tentando, ela é o que nos faz seguir com coragem para caminhar na direção contrária, para caminhar em nossa própria direção. Enquanto o peito continuar gritando, a luta existirá. Enquanto houver o sentir, a luta resistirá.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

escava-me a água. escava-me como escava a terra vermelha. constrói profundos caminhos em mim. latejam, mas persisto escorrendo e me arrastando através deles. uma dor profunda se revela. mas continuo navegando através do líquido que assola e restaura meu próprio corpo: o desconhecido. que eu possa sair ilesa aos monstros internos. que não seja abismo em meu próprio fim. que eu seja porto, mas que as âncoras não me impeçam de desvendar outros mares. que eu seja mar, mas mais do que isso: que ele me ensine a ser em mistério.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Hoje, como numa tradição de dias chuvosos, fiquei comigo mesma, me perdi e me encontrei em mim. Me encontrei em lágrimas e sorrisos, em calmaria e desespero. Participei de um ritual: vestir-me de mim. A chuva me traz à mim, a água caindo em minha pele, também é pele caindo no que tenho de água, no que tenho de vida. Revirei o passado, o presente e o futuro. Encontrei com uma sapatilha, um collant e uma meia calça. Vesti! Vesti-me de mim! Senti o contato do tecido com a pele, o apertar dos pés. Senti meus músculos, senti meu pulmão se comprimindo e expandindo, senti meu coração batendo mais forte. Senti o quanto para ser eu, já precisei estar fora visitando outros mundos, outros corpos. Senti o quanto outros mundos e outros corpos também me são. O suor me foi como a chuva penetrando em minha pele. Senti! Eu sinto! As vezes sentir parece um milagre! Por mais que doa, por mais que eu por diversas vezes não entenda. Sim, sentir é um milagre. Sentir é enxergar com a pele. Arranquei a roupa como quem tenta arrancar o peito, quis correr, quis gritar, mas apenas coloquei minha pior roupa e caminhei, ao meu encontro. Olhava para o chão, queria estar mais próxima dele, olhava para o céu, queria-o dentro de mim. Queria poder enxergar minha verdadeira face nas poças de chuva, na lama. Mas a única coisa que consegui foi sujar minhas pernas de barro. Queria caminhar sem sentido, sem encontros, mas a rua não me permitiu. Eu não queria encontrar com o humano de fora, eu queria encontrar com o humano de dentro. Toc, toc: quem tá aí nesse oco profundo? Que rosto é esse que uma imagem borrada de uma mulher sem óculos representa? Quis entender o que as árvores estavam me dizendo, o que os pássaros estavam me dizendo. Queria que gritassem algo sobre mim! Algo sobre esse desconhecido que as vezes me desespera! Mas tudo ficou em silêncio. Queria correr sem ter porque voltar. Mas eu só consegui caminhar um quarteirão. Tive medo.Tive medo de me perder no comum do caminho. Tenho medo de nunca me achar. No banho a água retorna, o sentir da pele retorna. Me encolhi como semente e pensei: preciso brotar! Que a água nas minhas costas seja a vida que me falta. Ou a vida que quer transbordar de mim e de alguma maneira está presa. Lembrei do verde vivo das plantas na chuva. Quis ser verde. Quis ser planta. Acho que porque em meio ao tudo e ao nada do meu próprio mistério: tenho tentado ser, sentir e agir como sou, sinto e ajo. E como é que sou, sinto e ajo? Não sei. Que mais tardes como esta possam não me dizer.

domingo, 29 de setembro de 2013

Gratidão

[Da janela, ela vê como a vida segue. Ganha coisas que tão sempre ali e ninguém percebe. Acredita que a vida é mais que a sobrevivência. Luta, bate de frente, joga na resistência. Vai além do que os olhos podem enxergar. Já que limites são fronteiras, decidiu atravessar. Navega, em busca de um sonho a realizar. Pelos mares da realidade, tempestades enfrenta. Pela honra, morre. Nunca se entrega. No olhar sincero, a força pra recomeçar. Na presença do luar, caminha, segue. Recorda-se sempre do que veio fazer aqui. Da missão que assumiu, extensão disso aqui. Visão que adquiriu conforme as coisas que viveu. Aprendeu a amar. Por amor, sofreu. Perdoa à quem fez chorar, é grata à quem fez sorrir.]

-Síntese.

Entre seus colchetes: a gratidão. 
Com você ela transborda.