terça-feira, 21 de outubro de 2014

Incenso de lótus

Ao vivido compartilhado.


Hoje acordei cinza. Mas é preciso não esquecer que cinza também é cor.
Hoje acordei meio filme em preto e branco. Cenas não me passaram pela cabeça, mas por algum lugar do corpo que nem sei o nome.
Senti o passado roçar a pele e dar arrepios.
Senti o passado roçar a pele e fazer coceguinhas.
Senti saudade.
Vi arroz jogado por um dos pisos de madeira mais aconchegantes que já vivi.
Não somente por ser de madeira, mas por ser abraço, um dos abraços mais coloridos que já encontrei e que graças a vida tenho o prazer de continuar encontrando.
Eta delícia é se embriagar de peito aberto! Cachaça de jabuticaba não é nada perto de quem ri e chora com palmeiras ao vento. Não é nada perto de quem tem e cultiva dia a dia o respeito da terra do peito-explosão! Posso escutar daqui a intensidade em que vive, em que gargalha, em que se põe a chorar, a dançar, a pintar, a encantar!
Sinto hoje florescendo a poesia e a coragem que plantou em mim.
Quando eu não sabia para onde ir, me lembrou que nosso chão são nossos pés mesmo que constroem. Me ajudou a ser chão, num chão desconhecido pra mim.
Resgate de alma era vir pra essa terra e me deparar com você! Resgate de alma é viver dia a dia tendo consciência disso.
Fazer do "desordenado" das cores um arco-íris, uma paisagem, não é pra qualquer um neguinha! E isso, putaquepariu! Tu faz bem que é uma coisa de louco!
Lembrei das colherinhas "para que não se perca o sabor". Ahh, sábio Rubem Alves! Ah as palavras, as pessoas, a poesia, que sempre chegam na hora certa!
Ah Victor Araújo que deságua água represada! HAUHAUHAUAH!
Porque "palavra boa é palavra derretida, em forma de lágrima", e "Em caso de poemas difíceis use a dança. A dança é uma forma de amolecer os poemas,
endurecidos do corpo",outra sábia essa Mosé.
Lembrei da sabedoria do fogo, ao queimar o que é pra ir e reafirmar nosso encontro, que é alma. Que tenhamos a sabedoria minha amiga, de deixarmos as coisas caminharem no tempo delas, porque os encontros são tão certeiros quanto os desencontros. E de troncos "secos" nascem flores lindas!
Que possamos dançar também no fluxo das coisas! Como a palmeira-cabeleira! HAUHAuAHUAH! Vento vaaaai, vento veeem... Tudo isso ao som de "vagaba! bandida!" HAUHAUhauAh! Ou daquela música que te possibilitou dançar ainda mais, aquela cumbia da boa que te faz requebrar os ombrinhos de bahiana!
Enfim minha amiga, que o que carregamos seja para nós como abraços! Seja para nós gratidão e nos ilumine a aprender imensamente com a nossa caminhada!
Gratidão por toda a poesia e inspiração.
Gratidão é muito pouco para dizer, espero que abraços digam mais.
Que continuemos construindo passo por passo o nosso chão.
Que os encontros e os desencontros só nos façam a cada dia mais nos encontrarmos conosco mesmo.
"Que nunca percamos a sensibilidade". Que o peito continue aberto e nunca estanque.
Te amo muito muié!

Corpo é mundo!

Ando desabitada de casas...
Corpo é mundo!

Gosto quando as palavras saem como lava, erupção.
Lavem palavras! Não tendo outro destino que não a 'escorrência' morna do fora!
Esvaziam-me espessa, l e n t a m e n t e.
Abraço do nada. Tudo! Silêncio. Conforto quentinho.

Hoje a poesia me teve vontade.
Hoje pude ser vulcão.

Espera, o tic tac do relógio só bate em hora certa.
Como um dia escrevi: tentar adiantar não adianta.
Mas que tempo é esse?
(Me remeti as horas mudadas agora no relógio pelo horário de verão.)
Por um tempo mais coração e menos convenção!!
Por mais tum-tum e menos tic tac!
Aí sim, verão. O meu verão.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O terceiro caixa-forte

Eram 4.
Dois vermelhidão, escorriam.
Outros dois, de pedra, guardavam solenemente de frente ao vidro os que acabaram chão.

"Liberdade machucada. Não é à toa que eles tenham morrido aqui..."

Eram 3.
O único que restou de pedra como que testava do que era feito.
Batia desesperadamente a cabeça no vidro.

Algo maior e desconhecido se aproxima dele.
Quer protegê-lo de sua ação.

Completamente desorientado ele tenta fugir, mas não sabe para ou de onde pisa.

No desespero redescobre-se parte de si, à muito esquecida: algo a que chamam de asas...
Elas corpo, abrem por instinto de salvação. Batem por algo que a consciência considerava soterrada.

No alto em fração de segundo, bate a cabeça na pedra maior.
O choque estrondoso o desperta. Descobre-se menos pedra do que imaginava.
Pôde entender porque a vermelhidão úmida lhe atraia tanto, guardião fiel que fora.

Sempre fora umidade. Cheiro férreo, terra.
Nunca fora pedra.
(Tornou-se ostra guardando segredo de pérola, não sabia-se pérola).

Com o baque da batida, esteve a um tris de se tornar definitivamente chão, vermelhidão completa.
Mas acabou por se entregar a outro: a si.

Cansou de guardar os ensanguentados e finalmente voou.
Bebeu do próprio sangue para revelar-se céu.
Bebeu de suas asas para voltar a reconhecer-se terra.

Carregava o mistério de possuir raízes que podiam voar.

Escolheu entregar às asas o próprio peso e a própria libertação.
Resolveu aguentar o céu e plantar o seu.
Plantar as sementes das asas...






quinta-feira, 5 de junho de 2014

Percepção

"Tô na chuva pra me molhar".
Mas às vezes por não saber o que vem do céu, sinto que tenho o impulso de abrir o guarda-chuva.
O desconhecido assusta e a água muitas vezes é fria e incômoda.
Sinto que todo meu esforço é para manter o guarda-chuva fechado, para deixar a água escorrer me entregando à ela, e quem sabe, de alguma maneira, para que eu possa transbordar nessas vivências.
Agir, descobrir na ação é desafio!
Há o empenho contínuo para mergulhar nesse mundo, tão desconhecido quanto o mar...
Há o empenho e a vontade de estar de corpo aberto para poder ser afetada por cada uma das possibilidades, por cada um dos mundos que me são apresentados.

[Absorver] - "Embeber-se de."

Por que não ser absorvida?
Por que não embebedar-me?



quinta-feira, 20 de março de 2014

Revés

engolir a si próprio. engolir repetidas e repetidas vezes, continuamente... tentativa dolorida, esperança frágil, de que em alguma delas,  (por favor, em qualquer uma delas!), seja possível digerir a comida estragada que revira não apenas o estômago, mas o corpo todo em cada uma de suas células ardentes, desesperadas por ar. engolir-se é  ciclo contínuo e vicioso. ciclo amargo, chega a ter gosto de fim de vômito, ácido corrosivo entalado na garganta.  desde o primeiro momento, quando a boca revira seus olhos para dentro, na primeira tentativa de deglutição, perde-se a capacidade de identificar o lado avesso. ele torna-se um só lado nesse eterno e sufocante revesamento. tudo está intoxicado. o corpo é moeda girando cambaleante cara-coroa-cara-coroa-cara-coroa-cara-coração-cara-coração-cara, cor ação, cara! cor na ação! cara! cor! cor! cor po ação!
a moeda ofegante joga-se entregue ao chão. o corpo ofegante sem, torna-se chão. pisa em si próprio em busca de salvação, perna sobre perna numa corrida sem chegada, na qual o pulmão grita desesperado por socorro. expande-se com a força de quem quer ser mundo. quer ser o big bang necessário para que a vida congelada e comprimida exploda e reine em sua maior potência. sufoca. tosse. força em seu último suspiro o trabalho de parto. parte. ainda não todo, parte...


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Acolhimento

Olhar de carinho, pano branco em mãos. Venda-me. Não vejo mas sinto, é pele. Sentir é ver com a pele e para além dela. Quanto cuidado... Sinto-me abraçada pelos dedos que me guiam. Não sei para onde ir e nem o que fazer, mas me sinto bem. Arrepio, a emoção toma meu corpo, meus olhos respondem com lágrimas; umedeço a venda. Sou eu transbordando a beleza que me proporcionaram e que não cabe em mim, que me ultrapassa, que me imensa. Estremeço de gratidão! É esse o estremecer!! O que nutre, o que impulsiona o movimento! Escorro de gratidão da cabeça aos pés! Cantarolo sussurrando: "Eu tô, eu tô, em casa agora eu tô, pararatimbum pararatimbum, eu tô, eu tô eu tô eu tô..."

Sinto que diante da vida, todos estamos de olhos vendados.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Onde existe o sofrimento e ele é considerado, ainda existe esperança. O sentir ainda não está abafado, amortecido, acomodado, esquecido. Considerar o sofrer é agir para uma não conformação. Essa não conformação é o que nos impulsiona a continuar tentando, ela é o que nos faz seguir com coragem para caminhar na direção contrária, para caminhar em nossa própria direção. Enquanto o peito continuar gritando, a luta existirá. Enquanto houver o sentir, a luta resistirá.