quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

poros-gratidão

Deixa, deixa escorrer! Não empoça não!
Do topo da cabeça à planta dos pés!
Isso! Deixa passar!

Gota por gota ser-corrente. Correnteza!
ser-passagem.v a g a r o s a m e n t e.

A melhor imagem tornou-se corpo.
Era tanta beleza que não coube, transbordou.

A não-palavra fez tanto sentido que aprendeu a ficar em silêncio.

Para o que foi não há foto ou palavra suficiente.
Muito menos para o que é.

Mas há corpo.
preenchido e respirado.
dolorido e curado.

Momentos pés.
Momentos pernas.
Momentos quadril.
Momentos costas.
Momentos cabeça.

Quanta palavra incompleta! Corpo gritando e quietinho é bem mais!

Para pés parados, pés dançantes.
Aqueles que dia a dia divertem-se criando caminho.

Para pernas dormentes, pernas formigantes.
Aquelas que afirmam-se dia a dia próprio caminhar.

Para quadris rígidos, jogo de cintura.
Aquele que acredita nas possibilidades do "impossível".

Para costas doloridas, costas leves.
Aquelas que a cada dia aprendem a carregar apenas o que precisam e querem.

Para cabeça-emboscada, cabeça-asas.
Aquela que luta todos os dias por uma liberdade não ilusória.

Mapear o corpo é saber-se vida!
Saber-se instante, paisagem, interno e externo!
Misturança temperada, uma coisa em muitas!

Para as pessoas-encontro e para as pessoas-desencontro tenho poros-gratidão!
Tornaram-me e foram-me. Estão enquanto ficam, vão e são.


Neste fim e nesse recomeço tive e tenho:
Poros- gratidão!
Coração-fogos de artifício!
Braços-companheirismo!
Olhar-cumplicidade!
Dedão do pé-pôr do Sol!


Tenho também, aliás, não tenho porque é de natureza tudo escorrer:
 Umidade além corpo.


Tenho aprendido a transbordar em gotas.
São breves. Caem ou secam.
E assim, em seus finitos segundos, me infinitam.
E por isso, não tenho a mínima ideia de como agradecer.







       





terça-feira, 18 de novembro de 2014

Somos grãos

Marlene.
Ao mar, reme.

Lá estava ela, se banhando.
Será que ouvia o barulho das ondas?

Concreto e fumaça.
Na calçada, as pessoas continuavam seus trajetos, arrastadas como uma só massa de cegos e surdos para o grão de areia que ali estava. Uma onda de gente. Todos tão grão quanto aquele que cuidava de si em via pública, neste caso, também via particular.

Marlene estava sendo. Sendo água com quase nenhuma. Quando passamos por ela, tivemos o cuidado de esperar. Não queríamos atrapalhá-la num momento íntimo. A casa dela é a rua, o lugar de banhar-se também. Sim, ela estava tomando banho. Um galão de água umedecia um pano, o qual passava pelo corpo.
Quando nos aproximamos, num momento de pausa, ainda se banhando e completamente em casa, foi logo mostrando seu seio, disse que tinha areia e que vinha de Santos.
Durante toda a conversa, o amor por Santos e pelo mar esteve sempre presente.
Segundo ela, viaja vez ou outra para lá. Como? Não perguntamos. Penso também que não é preciso saber. O importante é que ela consegue viajar, saindo ou não fisicamente do lugar. Santos está com ela, nela.  Sustenta-a neste mundo de asfalto e concreto que é São Paulo.
Os muitos colares e anéis a destacavam, não perdeu a vaidade e o colorido num lugar que insiste em acinzentar os lugares e as pessoas.
Em um momento falou algo sobre um rádio, um rádio que só ligava quando perto do coração.
Quantas coisas realmente só ligam quando estão perto dele?
Marlene nos disse que somos fortes. Fiquei pensando na imensidão da força dela, que na conversa relatou que se esconde todas as noites da polícia para poder dormir, esconde também suas pouquíssimas coisas dentro da blusa para não ser roubada, vivendo no extremo do incerto minuto por minuto.

Ela é que é força. Imensidão.
Como o mar...
 
 
(Para não esquecer. Publicado em qualeseunome.blogspot.com 12/05/14)

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Incenso de lótus

Ao vivido compartilhado.


Hoje acordei cinza. Mas é preciso não esquecer que cinza também é cor.
Hoje acordei meio filme em preto e branco. Cenas não me passaram pela cabeça, mas por algum lugar do corpo que nem sei o nome.
Senti o passado roçar a pele e dar arrepios.
Senti o passado roçar a pele e fazer coceguinhas.
Senti saudade.
Vi arroz jogado por um dos pisos de madeira mais aconchegantes que já vivi.
Não somente por ser de madeira, mas por ser abraço, um dos abraços mais coloridos que já encontrei e que graças a vida tenho o prazer de continuar encontrando.
Eta delícia é se embriagar de peito aberto! Cachaça de jabuticaba não é nada perto de quem ri e chora com palmeiras ao vento. Não é nada perto de quem tem e cultiva dia a dia o respeito da terra do peito-explosão! Posso escutar daqui a intensidade em que vive, em que gargalha, em que se põe a chorar, a dançar, a pintar, a encantar!
Sinto hoje florescendo a poesia e a coragem que plantou em mim.
Quando eu não sabia para onde ir, me lembrou que nosso chão são nossos pés mesmo que constroem. Me ajudou a ser chão, num chão desconhecido pra mim.
Resgate de alma era vir pra essa terra e me deparar com você! Resgate de alma é viver dia a dia tendo consciência disso.
Fazer do "desordenado" das cores um arco-íris, uma paisagem, não é pra qualquer um neguinha! E isso, putaquepariu! Tu faz bem que é uma coisa de louco!
Lembrei das colherinhas "para que não se perca o sabor". Ahh, sábio Rubem Alves! Ah as palavras, as pessoas, a poesia, que sempre chegam na hora certa!
Ah Victor Araújo que deságua água represada! HAUHAUHAUAH!
Porque "palavra boa é palavra derretida, em forma de lágrima", e "Em caso de poemas difíceis use a dança. A dança é uma forma de amolecer os poemas,
endurecidos do corpo",outra sábia essa Mosé.
Lembrei da sabedoria do fogo, ao queimar o que é pra ir e reafirmar nosso encontro, que é alma. Que tenhamos a sabedoria minha amiga, de deixarmos as coisas caminharem no tempo delas, porque os encontros são tão certeiros quanto os desencontros. E de troncos "secos" nascem flores lindas!
Que possamos dançar também no fluxo das coisas! Como a palmeira-cabeleira! HAUHAuAHUAH! Vento vaaaai, vento veeem... Tudo isso ao som de "vagaba! bandida!" HAUHAUhauAh! Ou daquela música que te possibilitou dançar ainda mais, aquela cumbia da boa que te faz requebrar os ombrinhos de bahiana!
Enfim minha amiga, que o que carregamos seja para nós como abraços! Seja para nós gratidão e nos ilumine a aprender imensamente com a nossa caminhada!
Gratidão por toda a poesia e inspiração.
Gratidão é muito pouco para dizer, espero que abraços digam mais.
Que continuemos construindo passo por passo o nosso chão.
Que os encontros e os desencontros só nos façam a cada dia mais nos encontrarmos conosco mesmo.
"Que nunca percamos a sensibilidade". Que o peito continue aberto e nunca estanque.
Te amo muito muié!

Corpo é mundo!

Ando desabitada de casas...
Corpo é mundo!

Gosto quando as palavras saem como lava, erupção.
Lavem palavras! Não tendo outro destino que não a 'escorrência' morna do fora!
Esvaziam-me espessa, l e n t a m e n t e.
Abraço do nada. Tudo! Silêncio. Conforto quentinho.

Hoje a poesia me teve vontade.
Hoje pude ser vulcão.

Espera, o tic tac do relógio só bate em hora certa.
Como um dia escrevi: tentar adiantar não adianta.
Mas que tempo é esse?
(Me remeti as horas mudadas agora no relógio pelo horário de verão.)
Por um tempo mais coração e menos convenção!!
Por mais tum-tum e menos tic tac!
Aí sim, verão. O meu verão.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O terceiro caixa-forte

Eram 4.
Dois vermelhidão, escorriam.
Outros dois, de pedra, guardavam solenemente de frente ao vidro os que acabaram chão.

"Liberdade machucada. Não é à toa que eles tenham morrido aqui..."

Eram 3.
O único que restou de pedra como que testava do que era feito.
Batia desesperadamente a cabeça no vidro.

Algo maior e desconhecido se aproxima dele.
Quer protegê-lo de sua ação.

Completamente desorientado ele tenta fugir, mas não sabe para ou de onde pisa.

No desespero redescobre-se parte de si, à muito esquecida: algo a que chamam de asas...
Elas corpo, abrem por instinto de salvação. Batem por algo que a consciência considerava soterrada.

No alto em fração de segundo, bate a cabeça na pedra maior.
O choque estrondoso o desperta. Descobre-se menos pedra do que imaginava.
Pôde entender porque a vermelhidão úmida lhe atraia tanto, guardião fiel que fora.

Sempre fora umidade. Cheiro férreo, terra.
Nunca fora pedra.
(Tornou-se ostra guardando segredo de pérola, não sabia-se pérola).

Com o baque da batida, esteve a um tris de se tornar definitivamente chão, vermelhidão completa.
Mas acabou por se entregar a outro: a si.

Cansou de guardar os ensanguentados e finalmente voou.
Bebeu do próprio sangue para revelar-se céu.
Bebeu de suas asas para voltar a reconhecer-se terra.

Carregava o mistério de possuir raízes que podiam voar.

Escolheu entregar às asas o próprio peso e a própria libertação.
Resolveu aguentar o céu e plantar o seu.
Plantar as sementes das asas...






quinta-feira, 5 de junho de 2014

Percepção

"Tô na chuva pra me molhar".
Mas às vezes por não saber o que vem do céu, sinto que tenho o impulso de abrir o guarda-chuva.
O desconhecido assusta e a água muitas vezes é fria e incômoda.
Sinto que todo meu esforço é para manter o guarda-chuva fechado, para deixar a água escorrer me entregando à ela, e quem sabe, de alguma maneira, para que eu possa transbordar nessas vivências.
Agir, descobrir na ação é desafio!
Há o empenho contínuo para mergulhar nesse mundo, tão desconhecido quanto o mar...
Há o empenho e a vontade de estar de corpo aberto para poder ser afetada por cada uma das possibilidades, por cada um dos mundos que me são apresentados.

[Absorver] - "Embeber-se de."

Por que não ser absorvida?
Por que não embebedar-me?



quinta-feira, 20 de março de 2014

Revés

engolir a si próprio. engolir repetidas e repetidas vezes, continuamente... tentativa dolorida, esperança frágil, de que em alguma delas,  (por favor, em qualquer uma delas!), seja possível digerir a comida estragada que revira não apenas o estômago, mas o corpo todo em cada uma de suas células ardentes, desesperadas por ar. engolir-se é  ciclo contínuo e vicioso. ciclo amargo, chega a ter gosto de fim de vômito, ácido corrosivo entalado na garganta.  desde o primeiro momento, quando a boca revira seus olhos para dentro, na primeira tentativa de deglutição, perde-se a capacidade de identificar o lado avesso. ele torna-se um só lado nesse eterno e sufocante revesamento. tudo está intoxicado. o corpo é moeda girando cambaleante cara-coroa-cara-coroa-cara-coroa-cara-coração-cara-coração-cara, cor ação, cara! cor na ação! cara! cor! cor! cor po ação!
a moeda ofegante joga-se entregue ao chão. o corpo ofegante sem, torna-se chão. pisa em si próprio em busca de salvação, perna sobre perna numa corrida sem chegada, na qual o pulmão grita desesperado por socorro. expande-se com a força de quem quer ser mundo. quer ser o big bang necessário para que a vida congelada e comprimida exploda e reine em sua maior potência. sufoca. tosse. força em seu último suspiro o trabalho de parto. parte. ainda não todo, parte...